O Brasil tem uma habilidade particular: cometer erros estruturais e depois tratá-los como fatalidade. O esvaziamento do Rio de Janeiro é talvez o melhor exemplo disso.

Em 1960, a capital foi para Brasília. Junto foram os ministérios, as embaixadas, os empregos qualificados, o prestígio institucional. O Rio ficou com o nome, a paisagem e a conta. Seis décadas depois, a cidade que foi o centro do país por dois séculos discute como tapar buraco no asfalto e de onde vai tirar dinheiro para pagar servidor público. Não é coincidência.

O petróleo irrita porque escancara a lógica. O pré-sal, a Bacia de Campos — está tudo ali, no litoral carioca. Mas os royalties foram distribuídos por critérios que pouco chegam ao município. A cidade que convive com as plataformas no horizonte não consegue consertar o metrô. Alguém desenhou isso assim.

A violência, que virou a cara do Rio para o resto do país, não brotou do temperamento carioca. Brotou de décadas em que o Estado aparecia em certas regiões para “inglês ver” e raramente de outra forma. Desinvestimento tem endereço e tem consequência.

Dito isso — o Rio também tem culpa própria. Gestão municipal desastrosa em ciclos seguidos, corrupção que virou rotina, uma elite local que sempre soube privatizar o charme da cidade e socializar os problemas.

Mas a dívida federal existe e o país faz de conta que não.

A proposta que faz sentido e quase nunca é levada a sério: trazer o STF ou o Congresso para o Rio. Não a capital inteira — isso não volta e nem precisa voltar. Mas concentrar os três poderes na mesma cidade foi uma escolha, não uma lei da física. A Alemanha separou seu Tribunal Constitucional do governo federal por princípio, não por descuido. Karlsruhe fica longe de Berlim de propósito. Distância entre poderes é design democrático, não problema logístico.

E por falar em logística — esse argumento morreu e ninguém avisou quem ainda o usa. O Congresso funcionou remoto durante a pandemia. O STF transmite sessões ao vivo há anos, delibera por videoconferência, publica tudo em tempo real. A ideia de que ministro do Supremo precisa estar a vinte minutos do Palácio do Planalto para exercer a função é ou ingenuidade ou desculpa. A tecnologia resolveu o problema antes de alguém propor a solução.

O que a distância física entre STF e Executivo faria, na prática, é reduzir o acesso informal — o almoço, o corredor, o telefonema que não fica registrado em lugar nenhum. Esse é exatamente o tipo de proximidade que captura instituições. Quem resiste à ideia com argumento logístico está, conscientemente ou não, defendendo a manutenção desse acesso.

Para o Rio, as consequências seriam diretas: empregos, infraestrutura, investimento, atenção federal que hoje não existe. Não como esmola histórica — como resultado natural de sediar uma instituição da República. O esvaziamento do Rio não foi acidente de percurso. Foi decisão, ruim não só para o Rio, mas para o Brasil. E agora que nem a distância serve de desculpa, o que resta é admitir que o problema é político — e que resolver depende de querer.